A Educação Financeira no Brasil

Desde o início do século XXI, o Brasil teve um crescimento econômico muito significativo. Isso provocou alterações no padrão de vida e nos costumes da população, o que acabou aumentando consideravelmente o poder de consumo das pessoas, muito em função de maiores salários e do fácil acesso ao crédito. Diante disso, entrou em evidência a dificuldade dos brasileiros em gerir e trabalhar seu próprio orçamento de uma maneira inteligente.


A educação financeira no Brasil tem suas peculiaridades. As pessoas não têm o hábito de falar de dinheiro, muitas não se sentem à vontade quando vão falar sobre seu próprio salário, nem com pessoas mais próximas, não costumam conversar sobre o mercado financeiro, nem sobre as formas de gerir seu próprio orçamento e se organizar melhor.


Os brasileiros hoje, via de regra, desconhecem como funciona o sistema financeiro do país, pouquíssimos tem ideia de opções de investimentos e serviços que podem ser importantes para se planejar, aumentar seu orçamento e impactar no seu futuro e muitos ainda não sabem quais as diferenças entre as linhas de crédito oferecidas pelos bancos. Os brasileiros, portanto, não saberiam responder a perguntas que tem a ver com seu próprio dinheiro, o que ressalta a importância de prover mais conhecimento sobre este meio à população.


A mais abrangente pesquisa global sobre educação financeira, feita pela agência de rating S&P, a S&P Global Financial Literacy Survey (Pesquisa Global de Educação Financeira), averiguou o grau de educação financeira em mais de 140 países, onde foram realizadas mais de 150 mil entrevistas. O Brasil ficou apenas na 74ª posição no ranking global, ficando atrás de alguns dos países mais pobres do mundo, como: Madagascar, Togo e Zimbábue. Os destaques ficaram com Noruega, Dinamarca e Suécia. São aproximadamente 60 milhões de pessoas, quase metade da população do país, com contas em atraso.Lamentavelmente, grande parte da população brasileira não sabe lidar conscientemente com o dinheiro.


Na realidade, o que de fato isso quer dizer é que 45% dos brasileiros não poupam nenhuma quantia. Aqueles que poupam,apenas 10% separam uma pequena quantia por mês e destinam para a poupança enquanto 21% utilizam a própria memória para gerir as suas finanças, segundo pesquisa da ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). Outros 10% não poupam por escolha própria, ou seja, praticamente metade da população brasileira gasta todo seu dinheiro. Além do mais, 47% dos brasileiros dependem do INSS para a sua aposentadoria. Realmente isso deixa claro que há uma grande parte da população que não se planeja para o futuro e muito menos se preocupa com isso.


A grande questão é que há uma grande defasagem nessa parte. Não se aprende educação financeira nas escolas e faculdades​ e isso remete para um cenário onde mais de 80% da população faz compras sem planejamento e mais de 70% não possui quaisquer investimentos. O brasileiro não conhece o conceito de investir e a maioria investe em um dos tipos menos rentáveis, que é a poupança, assim perdendo tempo e dinheiro.


Em contrapartida, nos Estados Unidos, crianças começam desde cedo sabendo o caminho a ser trilhado, ou seja, aprendem o que é poupar aos 8 anos de idade. Existe inclusive um dia chamado “Dia de Ensinar as Crianças a Poupar”. Mais de 11 mil voluntários de instituições bancárias visitam escolas, distribuindo conhecimento e educação financeira com mais de 500 mil crianças enquanto aqui no Brasil, caminhamos a passos de tartaruga e só procuramos saber realmente o que é educação financeira e como se organizar, quando estamos com problemas financeiros. A educação financeira americana é uma das matérias primárias em colégios, e poupar é uma das bases da sociedade, chegando a ser dada o mesmo nível de importância de medicina.


Quando vamos falar de investimentos por exemplo, é nítido que existem muitas diferenças entre a forma de investir do brasileiro e do norte americano. Nos EUA, 65% da população investe na bolsa de valores. Do outro lado, aqui no Brasil, há mais pessoas na cadeia do que investidores de bolsa. O que significa que nosso número de investidores ainda precisa crescer consideravelmente.


Na Inglaterra, vale dizer também, desde 2014, as crianças aprendem como trabalhar e controlar o seu dinheiro de uma forma inteligente. Na Holanda, o governo instituiu parcerias com empresas prestadoras de serviços financeiros, que enviam especialistas no assunto para ensinar sobre finanças pessoais dentro das salas de aula.


Vale ressaltar também outro dado importante, com base em uma pesquisa feita em 2018, o Brasil atingiu a 10º posição no ranking mundial de planejadores financeiros certificados. Segundo os dados da FPSB (Financial Planning Standards Board), entidade que reúne todas as instituições no mundo que têm o direito de conceder o título, foram certificados 409 profissionais no Brasil em 2018. No total, o País tem 3.409 planejadores. O destaque positivo no ranking fica com os Estados Unidos (80.035 no total), seguido pelo Japão (21.151 no total), reforçando ainda mais a grande disparidade da educação financeira presente no Brasil em relação aos outros países, mesmo depois de ter ganho algumas posições com o passar dos anos.


É nítido que já caminhamos bastante durante esses últimos anos, mas ainda sim, há uma grande defasagem nessa parte e um longo caminho a ser percorrido. Perante este cenário, educação financeira é crucial. Informação é a grande arma para que a população possa usufruir de benefícios oferecidos pelas instituições financeiras sem perder o rumo e o direcionamento das suas finanças.O ponto está em lidar com o consumo de forma consciente e assim evitar o endividamento. Mas é fundamental também trabalhar os conceitos de educação financeira nos primeiros anos da infância e adolescência, ação que pode traduzir mudança de comportamento na vida adulta.


Com a soma desses esforços atrelados a conscientização de que educação financeira é parte fundamental da formação, o Brasil pode reverter e mudar esse cenário que endivida excessivamente parte de sua população de uma maneira mais rápida, eficiente e inteligente.

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